“A vida é só um empréstimo”

por Dr. José Geraldo da Fonseca. Desembargador do Trabalho (aposentado) e advogado.

Passava um pouco das três da tarde de uma quinta-feira ensolarada quando senti durante o banho, sozinho em casa, uma dormência esquisita na perna e braço esquerdos, irradiando-se discretamente para o lábio inferior.

Como já sofrera um infarto há pouco mais de dez anos, não subestimei os sintomas.

Vesti-me com o que tinha à mão, chamei um Uber e saí voando para o hospital.

Descrevi o quadro para a recepcionista, que me desobrigou da longa burocracia, chamou um maqueiro que, prontamente, me atendeu com uma cadeira de rodas, e uma outra mocinha me algemou o pulso esquerdo com uma fita adesiva vermelha onde se lia “suspeita de AVC”.

Rapidamente, o maqueiro me conduziu por um labirinto de pequenas salas, gente apressada, gente chorando, gente triste e desesperançada e médicos pra lá e pra cá ocupados com sua rotina estressante. O maqueiro me enfiou num daqueles casulos, indicou-me uma cama para a qual eu devia me transferir, acomodou meus pertences à minha cabeceira, tirou meus sapatos e sugeriu que aguardasse ali sem me mexer desnecessariamente e sem me levantar.

Em segundos, apareceu uma médica jovem, na flor dos seus vinte e poucos anos, loirinha, cabelinhos cortados à chanel, um belo par de olhos azuis que lhe punham no rosto uma carinha de boneca de porcelana. Disse que se chamava Ana Maria Fisher, era neurologista, e ficaria responsável pelos primeiros cuidados da minha saúde naquela UTI.

Examinou minhas retinas sob a luz do seu celular, puxou o estetoscópio do pescoço, auscultou meu coração, tomou-me o pulso, pediu-me para descrever os sintomas e anotou tudo num caderninho amarelo com um Snoopy desenhado na capa.

Antes de sair, disse que eu provavelmente sofrera um AVC, mas tudo iria ficar bem porque o hospital era bem-aparelhado, o pessoal era ótimo e que talvez me submetessem a uma tomografia com contraste de iodo, a uma ultrassonografia e a uma ressonância do coração, com estresse, para verificar se havia alguma lesão coronariana.

Em seguida, deixou-me com minhas falências e enveredou-se pelos casulos verificando os outros pacientes, com a mesma doçura com que me recebera naqueles instantes hostis.

Fiz os exames a que ela se referira e fui levado ao quarto 912 do hospital. Tinha tido um AVC e devia permanecer internado.

Por ali fiquei uns quinze dias.

Em todos os dias, duas vezes por dia, pela manhã e ao cair da noite, aquela médica que faria dobrado sucesso como modelo se decidisse enveredar por esse caminho aparecia por ali, sempre rindo, sempre com uma notícia boa, abria as cortinas do quarto, acendia as luzes, media a pulsação, perguntava se eu sentia dores, se fora ao banheiro, se me alimentara, se estava tomando os remédios direitinho.

Um dia, apareceu do nada, no meio da tarde, pediu-me que me sentasse na beirada da cama e tentasse pôr os braços acima da cabeça, juntando as palmas das mãos. Fiz o que pude para corresponder à ordem, e ela, observando minhas tatuagens nos braços, comentou:

— Eu também tenho duas tatuagens, mas não são tigre e pantera, como as suas, mas frases. Prefiro frases.

Em seguida, puxou as mangas do jaleco branco até os cotovelos e mostrou-me as tais frases. No antebraço esquerdo, tatuara “Ando muito completa de vazios”. No direito, “A vida é só um empréstimo”.

— “Está aqui — disse-me, mostrando a frase do braço esquerdo, “Ando muito completa de vazios”, tirada de um poema de Manoel de Barros — me avisa que não sou perfeita, que tenho defeitos, e que preciso a todo momento completar meus vazios até me tornar inteira”.

“E está aqui— disse, mostrando a frase do outro braço— me lembra que o tempo voa, que é preciso ter pressa e completar rapidamente os meus vazios porque a vida não nos pertence.

 “É só um empréstimo”. E, como disse Cecília Meireles, é preciso ter pressa porque, de repente, nos visita a morte, ou coisa parecida, e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida”.

Numa tarde, depois de uma das suas costumeiras visitas, disse que no dia seguinte a fisioterapeuta me levaria para passear no corredor porque ficar muito tempo deitado não era bom para mim, e que andar evitaria tromboses.

De fato, no dia seguinte, após o café frugal, mas bem-feito, a fisioterapeuta apareceu, fez as massagens de praxe e me pediu para que lentamente a acompanhasse pelos corredores. Sem pressa. A perna esquerda pesava quilos de chumbo, e descia como um toco velho no porcelanato do piso, imaculadamente limpo. Um pinguim gordo teria um caminhar mais elegante e esguio. Ficamos por ali cerca de dez ou quinze minutos, se tanto, e tornamos ao quarto desfrutando o sabor de mais uma grande conquista minha.

Vocês não têm ideia do que representa para um sequelado de um derrame cerebral andar uns trinta metros por conta própria, sem bengalas ou cadeira de rodas.

Equivale a chegar na frente de Usain Bolt com cinco minutos de vantagem.

No reingresso à ala da Neurologia, a caminho do quarto 912, li no frontispício de granito rosa, em letras de metal polido, “Ala Neurológica Dra. Ana Maria Fischer”, e só então me dei conta da importância da médica que vinha cuidando de mim desde a internação.

Naquela mesma noite, alguém bateu à porta, acendeu a luz com um “tô entrando”, e me perguntou:

— Como está o meu doentinho preferido?

E antes que eu dissesse qualquer coisa, ela disse que já sabia que eu tinha andado pelos corredores de braços dados com a fisioterapeuta e que quase morrera de ciúmes.

Ri.

Ela, então, disse:

— Trago-lhe boas notícias — tinha um imenso sorriso nos lábios carmim combinando com o esmalte das unhas —. O sr. vai para casa amanhã!

Agradeci a notícia e os cuidados com minha saúde.

— Não me agradeça por nada — respondeu—. É o meu trabalho.

— Eu sei, doutora, mas há médicos e médicos.

— De fato. O senhor tem razão — concordou — Mas o senhor recebeu um presente de Deus. Daqui pra frente, tome juízo. Tome seus remédios direitinho, escolha melhor o que comer, tire um pouquinho o pé do acelerador, faça algum exercício. Não deixe a vida te levar. Leve-a o senhor pelas mãos.

Ouvi tudo atentamente.

— Promete? — esticou em minha direção o dedo mindinho, como as crianças fazem uma com as outras para selar um compromisso verdadeiro.

— Prometo — enganchamos os dedos e selamos nosso pacto.

— Acho bom — resmungou enquanto lançava algumas anotações no seu caderninho amarelo.

Virou-se pra mim e disse, com ar sério e profissional:

— Olhe aqui, mocinho. Acho bom o senhor se comportar daqui pra frente. O que o senhor teve é grave. Gravíssimo! Se eu tiver de voltar aqui outra vez, provavelmente não vai ser apenas pra lhe dar um puxão de orelhas. Certamente, será algo muito pior!

Deu-me boa-noite, e antes de apagar a luz do quarto e sair pelos corredores em busca de outros pacientes, ergueu os braços e me mostrou as tatuagens:

— Lembre-se: somos muito completos de vazios. Eu e o senhor. Todos. O lixeiro da sua rua e o Papa. Os que não sabem o que é pobreza e os que não sabem o que é fortuna. Os que matam e os que morrem. Os que sofrem e os que aliviam a dor. Somos todos uma promessa de gente. Um rascunho. Todos faltando um pedaço. Nem sempre dá tempo pra completar o desenho. A vida é só um empréstimo. Complete seus vazios antes que o visite a morte, ou coisa parecida, e te arraste, moço, sem ter visto a vida.

Sorri, joguei-lhe um beijo carinhoso e me pus a pensar na vida, no monte de merda que havia feito até então e o que me restava fazer para seguir na missão, se desse tempo.

Alguns minutos depois, outra médica entrou no quarto, acendeu a luz, fez os exames de praxe, anotou, checou os relatórios, e depois me disse:

— Sua evolução é excelente, senhor José. O senhor vai para casa amanhã.

— Eu sei, doutora, a dra. Ana Maria já me deu essa boa notícia.

— Deu como, se eu sou a única responsável pelo setor?

— Deu, doutora. Saiu daqui ainda agorinha. Aquela loirinha, cujo nome está escrito no pórtico da entrada desta ala, a que tem duas tatuagens nos antebraços.

— Escute-me, senhor José — ela disse pousando suas mãos carinhosamente sobre as minhas—. O nome que está escrito no pórtico desta ala é o da dra. Ana Maria Fischer, uma colega nossa que morreu de câncer no ano passado. Tinha 26 anos e era adorada por todos aqui. Foi uma perda lastimável para a Medicina.

Sabe que, às vezes, eu dobro um corredor e tenho a nítida impressão de que ela ainda está por aqui, ao meu lado, saindo apressada de algum quarto? Perdemos, de fato, uma pessoa que era quase luz. Aninha não era deste mundo. Mas, como ela mesma dizia, a vida é apenas um empréstimo. Quando menos a gente espera o dono dela a pede de volta. E não adianta dizer que não vai devolvê-la.

Me desejou sorte e, à saída, disse:

— Lembre-se: a vida é só um empréstimo. E somos todos muito completos de vazios.

Apagou a luz e despediu-se com um “Fique bem!”.

E aqui estou eu esperando que me visite a morte, ou coisa parecida, e me arraste, moço, sem ter visto a vida …